Um olhar inovador para negócios culturais

 

“Pensar em projetos criativos a partir de tudo aquilo que faz realmente sentido, que nos anima e nos comove, tendo a consciência da capacidade de transformar as coisas, é um aprendizado que levarei para a vida inteira.” O depoimento da jornalista paraense Márcia Carvalho dá uma ideia do quanto o professor André Martine

z e sua metodologia nada convencional conduzem os alunos a um outro patamar reflexivo.

 

Entre os dias 11e 13 de setembro, esse pensador provocativo estará em Fortaleza, a convite do Tear Comunitário, para ministrar um curso voltado a empreendedores e gestores de negócios criativos. Propor esse tipo de aprendizado tem tudo a ver com o DNA do Tear, entidade sem fins lucrativos, que desenvolve projetos baseados nos princípios da economia solidária nas áreas de educação integral, geração de renda e resgate do artesanato tradicional.

 

O nome do workshop, Laboratório de Inteligência Sociocriativa, pode parecer pretensioso ou original demais – como tudo o que André Martinez propõe. Mas esteja certo de que você sairá de lá agradecido por todos os novos insights que terá, por todas as novas sinapses que seu cérebro será capaz de fazer. E ser desafiado a pensar caminhos inovadores para seus projetos é tudo de que um empreendedor sociocultural precisa para alavancá-los.  “Na sociedade tradicional, que valoriza tanto a missão, a visão e o planejamento estratégico de uma empresa, desejo, tesão e amor não são tratados como trabalho. Na verdade é isso que leva ao trabalho”, argumenta André Martinez.

 

No curso, os alunos são desafiados a pensar diferente, a desconstruir certezas, a sair da zona de conforto do raciocínio binário e excludente ­– aquele das respostas prontas, do certo ou errado, do amigo ou inimigo, do idealista ou prático –, mundo no qual estamos imersos até a medula. Trata-se de um convite irrecusável para uma viagem em busca de um novo sentido para o trabalho. Uma viagem que propõe transformar a energia da competitividade, da produtividade e do pensamento econômico linear em pensamento sistêmico e práticas colaborativas. E que leva a mares nunca dantes navegados, como a economia do afeto e da criatividade desenvolvida em contextos culturais, sociais, humanos, digitais e tantos outros.

 

Os alunos ganham ferramentas mentais para lidar com outros conceitos inovadores, como o de inteligência sociocriativa, que vem a ser a capacidade de utilizar nossos potenciais criativos de forma integrada e interdisciplinar para criar, coletivamente, uma mudança desejada. Colocar em movimento e dar sentido a esse tipo de inteligência significa criar realidades mais inclusivas e sustentáveis para negócios culturais.  

 

A riqueza da diversidade

 

André Martinez explica que essas realidades são construídas a partir do entendimento de que olhares e pensamentos diversificados – inclusive opostos aos nossos – podem se conectar, enriquecendo processos e projetos. Nós e nossas convicções somos apenas uma pequeníssima parte de um todo. Portanto, validar o olhar do outro é sempre uma atitude inteligente.

 

Ao interagir com o método sociocriativo, o gestor cultural vai entender seu funcionamento e se apropriar de seus fundamentos. “Ele terá condições de compreender e operar o que faz de maneira mais sistêmica, complexa”, explica André. Ou seja, é mais fácil entender – e resolver satisfatoriamente – um problema ou situação pensando o todo em relação às partes envolvidas e pensando como cada parte se relaciona com as demais e interfere no todo.  Só conseguimos acessar nossa compreensão sistêmica, quando valorizamos o cruzamento de vários olhares. Trata-se de um treino, um aprendizado que se consolida por meio dos exercícios propostos no laboratório.

 

Com isso, o gestor criativo passa a enxergar seu projeto como um processo orgânico, vivo. “O empreendedor vai entender que as questões abordadas pelo seu projeto – um espetáculo teatral, por exemplo – não são apenas estéticas e artísticas. São também políticas, sociais, antropológicas. A comunidade que participa de um projeto social é também criadora. Faz parte da abordagem sistêmica analisar todos os impactos que o projeto pode gerar no meio (meio ambiente e meio humano, comunidade, pessoas envolvidas) e como o meio pode interferir no projeto”, explica André.

 

Conservar e renunciar

 

Lidar com problemas interdisciplinares vai exigir do empreendedor a aquisição de uma série de conhecimentos. Do contrário, ele terá dificuldade para fazer a gestão de todas essas perspectivas. “Temos a arrogância de querer controlar tudo, seja num processo ou numa empresa. Aprendizado é tomar decisões sobre o que você conserva, sobre o que renuncia, sobre como arbitrar sobre essa mutação constante a que está sujeito um projeto vivo, orgânico. Como faço pra interferir na mutação do meu empreendimento de forma positiva?”, pergunta André.

 

São tantas as provocações, tantas as possibilidades inovadoras para o gestor cultural, que tentar descrevê-las neste texto seria praticar outro tipo de arrogância: a do reducionismo. “Oferecemos um olhar para essas várias perspectivas pra poder aproveitar o máximo possível os potenciais do grupo”, explica o professor. O trabalho dele é o de aguçar escutas, afinar a capacidade de observar e de compreender que, ao validar a fala, a opinião do outro, estou validando aquela existência. “Sem o outro eu não existo. Preciso respeitar o outro, validar o outro, senão não irei validar a mim mesmo. Essa é a primeira construção que aparece na cabeça das pessoas. No entanto, tento trazer essa percepção como um exercício de inteligência. Te ouvir é uma técnica para que meu projeto seja mais inteligente”, ensina.

 

Nos três dias de workshop haverá espaço para exercícios criativos, como a “roda de sentidos”, um processo de descoberta humana, em que as pessoas vão se conhecendo. Outra técnica potente é o “inventário talentos”, um compartilhamento não apenas de habilidades e aptidões, como também de vontades, vontades, visões, recursos e potenciais, que acabam gerando conexões. “As pessoas descobrem oportunidades políticas ou econômicas, se vêem como uma rede que pode gerar coisas para o grupo.  O terceiro momento traz à tona os contextos de colaboração. O grupo descobre o que pode ser feito em conjunto desenha projetos convergentes e trabalha a questão da gestão participativa”, conta o professor.

 

Esses momentos são a dimensão mais prática e “polinizadora” do curso, que se baseia em quatro elementos: sentido (fogo), propósito (ar), método (terra) e aprendizado (água). Os quatro elementos, juntos, misturam razão, ação, pragmatismo e intuição para dar à proposta o fluxo que mantém o empreendimento vivo. “Quando compreendemos que empreender é aprender e não só desenvolver, criamos espaço para o surgimento de novos pontos de vista, novos paradigmas. Passamos a gerir uma curva de aprendizagem social com um enorme poder de transformação/inovação”, explica Martinez na apresentação de seu método.

 

Sabedoria espontânea

 

Na opinião dele, quem procura o curso em geral são pessoas afinadas com esses conceitos, ainda que intuitivamente. “Quando a pessoa encontra sentido em seu trabalho, não precisa usar o impositivo e o estratégico pra operar mudanças. Ela já consegue pensar de um jeito sistêmico, afetivo”, argumenta, dizendo-se feliz pelo fato de sua ida a Fortaleza estar sendo articulada por um projeto sociocriativo. “O curso é o reflexo da vontade de fazer de uma comunidade, que quer trabalhar nesse sentido do afeto. Já estou sentindo um carinho muito particular por eles”, diz.

 

O professor já esteve aqui para uma palestra num evento, mas mesmo nessa passagem rápida pela cidade encontrou pessoas interessadas no assunto. Espera, desta vez,em que vai “fazer algo com um aprofundamento maior”, poder ampliar o contato com a população. Em suas andanças por todo o país, André Martinez têm sentido que, no Norte e no Nordeste, as pessoas parecem mais prontas para a abordagem orgânica que ele propõe. “Talvez por sua cultura mais aberta, com espaço para a diversidade e o sincretismo religioso, elas estejam mais virgens, menos contaminadas pelos conceitos do capital. É como se já praticassem a complexidade espontaneamente, já soubessem lidar com isso”.

 

O laboratório tem possibilitado arranjos criativos bastante promissores para empreendedores de diferentes paragens. Há vários exemplos de projetos prosperando em Minas, no Maranhão, em São Paulo, no Rio Grande do Sul. Como o caso dos músicos indenpendentes, que abriram uma casa de shows em Belo Horizonte.  em BH, casas show BH, consigo perceber mudanças no território. “O cara conseguiu criar um modelo de negócio  que sobreviveu e ele continua sendo aquela pessoa humana, sensível, generosa. Em todo o país há gente comprometida, empreendedoras que fizeram projetos próprios com espírito colaborativo”, relata André.

 

A lição deste pesquisador interdisciplinar independente, conferencista, consultor em design sociocriativo, que estuda o assunto há pelo menos 10 anos, é clara: os negócios precisam, sim, de estrutura, estratégia e hierarquia, mas levando sempre em conta a dimensão humana. Em vez de gastar nossa energia tentando enquadrar nosso projeto dentro de uma  missão, uma visão ­– que André qualifica de “pensamento completamente esquizofrênico” – o melhor a fazer é acreditar nos fluxos da vida, e nos processos colaboratvos, que imprimem uma condição mais feminina e contemplativa a qualquer empreendimento harmonioso.

 

Que venham os ensinamento do Laboratório de Inteligência Sociocriativa. Fortaleza está pronta para abrir as janelas dos sentidos e se deixar impregnar desses fantásticos conhecimentos.

 

10 DICAS PARA FACILITAR O APRENDIZADO

 

A partir de sua experiência pessoal, convivendo com empreendedores culturais, criativos e sociais de todo o Brasil, André Martinez reuniu 10 atitudes simples que ajudam a mudar realidades angustiantes ao nosso redor.

 

1. Ame. Alimente e siga seus desejos criativos. Deixe-se ”inflamar” por eles. Pense no que anima você, no que coloca você ou seu grupo em movimento, naquelas coisas nas quais faz sentido colocar energia porque te dão uma inexplicável sensação de plenitude.

 

2. Estude seu viver. Cada passo dado, situação vivida, reação sua e, principalmente, cada nova forma de pensar que surgiu entre um aprendizado e outro. Empreender é aprender. Sua experiência de vida é o nutriente da sua imaginação. Observe seus processos e o jeito como a vida vai lhe ensinando a ser feliz. Aceite crises. Evite julgar.

 

3. Acredite num mundo melhor, tenha e compartilhe propósitos. Seja otimista, não fuja das utopias. Desaprenda a odiar, o ódio é paralisante. Sonhe e seja um intérprete-criador da realidade ao seu redor.

 

4. Compartilhe conhecimento. Interconecte-se. Seus desejos, suas ideias e sua experiência, ao entrar em contato com as de outras pessoas, criam novas possibilidades, mais inclusivas e sustentáveis. Aprenda a ouvir e a transformar conflitos em sabedoria.

 

5. Observe e compreenda o mundo e a vida de forma interdisciplinar. Pense além do modelo binário que utilizamos no cotidiano. Aprendemos que há uma disciplina para solucionar cada tipo de problema, mas não a pensar as inter-relações entre elas. Tendemos a ponderar a partir de uma lógica “ou/ou”. Ou certo ou errado, ou amigo ou inimigo, ou idealista ou prático etc. O projeto pode e deve ser economicamente viável, artisticamente consistente, culturalmente legítimo, democrático, não-violento, tecnológico, humano, uma relação não exclui a outra.

 

6. Pense que os opostos fazem parte de um mesmo sistema, busque harmonia entre eles. Entre o valor feminino e a atitude masculina. Entre resiliência e força realizadora. Entre o que pode e não pode controlar. Entre seu ecossistema interior e o meio ambiente. Entre o que você já viveu e o que você sonha viver. Entre o que realiza você e os efeitos que você pode gerar no mundo. A sociocriatividade brota no equilíbrio.

 

7. Encontre padrões do novo que você deseja produzir lá fora, mas em você mesmo e dentro de sua casa, de seu projeto. Se deseja democracia, crie mecanismos para que todos se expressem e participem em suas iniciativas. Se busca diversidade, aceite as distintas formas de pensar dentro do seu próprio quintal. Se quer justiça social, respeite os direitos de seus parceiros. Se que ser ético, respeite seu pior inimigo. Obtenha tecnologias para colocar valores em prática.

 

8. Pesquise jeitos de realizar, outras técnicas, invente suas próprias metodologias. O método é o caminho para alcançar um propósito. O instrumento que você precisa para “aterrar” seus sonhos e fruir seus sentidos no universo do possível. A inovação encontra-se mais nos métodos do que nas ideias. Sem métodos, nenhuma boa ideia é capaz de produzir o novo.

 

9. Erre. Sem erro não há aprendizado. Administre riscos e frustrações que podem exaurir sua energia empreendedora e vá em frente. Repense sempre seus modelos de sucesso. O mais importante é o conhecimento que você produz a cada nova tentativa.

 

10. Mantenha a roda da vida girando. Se você não der o primeiro passo, nada, nunca, vai acontecer.

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