São Paulo – Pirenópolis – Rio de Janeiro. Uma viagem emocionante e criadora com o tropicalista Jorge Mautner e seu parceiro musical Nelson Jacobina – da cidade grande ao interior do país e de volta à cidade grande.

 

A viagem, no entanto, não é tão simples quanto parece. O interior aqui é um um mergulho na alma brasileira, e o Brasil é o mundo todo. O Brasil negro, branco e indígena aparece em meio à mitologia, ciência, filosofia ocidental e oriental, música, poesia, “neurônios saltitantes”, “veleiros de luzes ofuscantes…” – Mautner antropofagicamente saboreia tudo e nos manda sua lição que vem da água com seu movimento que nos sacoleja pra lá e pra cá.

 

digital, 2007. 67′

 

Mito ou ciência? Sacis, curupiras, discos voadores, neurociência, física quântica, átomos, elétrons, alta tecnologia, belas paisagens, favelas e a lei. Eis aqui o Brasil destilado nas trombetas proféticas de Mautner: – Canalhas, arrependei-vos.

 

*31a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2007)

*Festival In-edit Brasil 2011

*Pão e Cinema – 45 anos de Tropicália / Caixa Cultural (2013) 

*Circuito Cinema Inédito Brasileiro / Caixa Belas Artes (2014)

 

produção Deusdará, Casa Redonda e Pontão de Cultura do Kaos

co-produção e distribuição Panda Filmes

 

Trailer

 

 

Resenha, por Marco Antônio Maluf

 

Amanhece em São Paulo (ou será um fim de tarde?) estamos de partida. Os cabos de alta tensão, os postes elétricos, os muros e as paisagens anunciam e apontam o caminho da nossa viagem. As trilhas da estrada nos levam por vários caminhos, mas, esta tem um destino certo: Pirenópolis em Goiás. O afastamento do grande centro urbano não nos deixa iludir quanto ao mergulho que estamos dando no mais profundo Brasil, estamos sim nos distanciando, mas nos distanciando simplesmente para chegarmos mais perto de nós mesmos. Este é o paradoxo que Mautner nos coloca já na música que abre a trilha sonora do filme, Iluminação: “…e quando a chuva se encontra com o vento Sei que falo com Deus e com Satanás!… … Pela música cheguei a Deus Quando vi que tinha chegado a Deus Vi que tinha chegado ao diabo ao mesmo tempo” Diante de nós desfilam janelas e portas de casas de um Brasil colonial, distante, mas ainda vivo. As imagens compõem, por si só, quadros magníficos e ficamos imaginando o tempo passar, imaginando as pessoas e os mundos que deram formas a estas simplicidades quase etéreas, e com elas histórias que nunca serão contadas. O mistério ronda por aqui, quantas palavras de amor e ódio foram levadas pelas águas das chuvas e minaram essas terras com a dispersão dos seus átomos. Quantos homens tombaram ao cair da tarde e à noite e com eles lágrimas de riso e de dor. Golpes de ar seco e úmido chicoteiam os pulmões que clamam por mais um único e breve momento… Depois, o silêncio refulgente e o grande mistério. É aqui, nestas águas vibrantes e profundas que Mautner busca nossos segredos, aqui ele busca a Luz. As janelas e portas são o nosso ponto de comunicação com o outro lado, com o invisível, e André Martinez nos convida a atravessá-la, a penetrarmos no avesso da coisa. E ela começa a brotar, assim como as águas brotam das pedras.

 

O filme deixa pegadas instigadoras e devemos segui-las. Se seguirmos a sua trajetória, isto é, os passos na estrada; se ligarmos os pontos entre São Paulo, Pirenópolis e Rio de Janeiro, perceberemos que estamos diante de uma figura geométrica. Não é necessária muita imaginação para ver que estamos diante de uma parábola, e qual a definição de uma parábola? Uma parábola ocorre quando dois pontos se distanciam simetricamente com relação a um eixo indo em direção ao espaço infinito onde nunca se encontrarão, muito embora o foco e as duas pontas que dali se lançam, sejam todos uma única e mesma linha. O ponto central desta linha, isto é, o vértice, é a cidade de Pirenópolis, do qual saem duas ramificações em direções opostas. A própria viagem a qual Martinez nos leva com Jorge Mautner e Nelson Jacobina é uma descrição geométrica das teorias científicas e explicações mitológicas que Mautner maravilhosamente deixa escapar dos seus lábios, e, também, o fato de que essas teorias e explicações dão embasamento para uma grande explicação do Brasil. Podemos perceber nestas passagens o quanto Heráclito com a sua idéia de unidade de contrários ou união de tensões opostas se encaixa nesta figura geométrica, dois ramos de uma mesma figura que se afastam, mas não podem se afastar nunca, porque são ambas uma só e mesma coisa que arde com seu fogo que nunca é o mesmo por um segundo sequer e ilumina o rosto do profeta.

 

Também temos as águas do rio no qual não entramos no mesmo duas vezes, tudo é mutação. Somos assim, levados ao ponto central de onde emanam os eflúvios, lá, na origem de tudo, em meio às águas brilhantes, turbilhonantes e cristalinas de Pirenópolis que saúdam a chegada do mensageiro com chuvas de prata e arco-íris. Assim como as águas anunciadoras onde nossos personagens mergulham e nos sacolejam de um lado pro outro, assim também, o jogo de imagens colorido e preto e branco nos coloca em dois mundos diferentes que são apenas um. Se usarmos um pouco mais a imaginação e dermos tridimensionalidade a essa figura, a parábola, ela se tornará um cone, e é desse modo que é explicada pela ciência a expansão do universo após o Big-Bang, isto é, o universo tem o formato de uma pêra de ponta cabeça, e lá no olho desse furacão caótico encontraremos Pirenópolis. O filme é movimento, é expansão o tempo todo, movimento para todos os lados, é um deslocar-se. Passamos por uma porta, por uma janela e estamos do outro lado mundo, do outro lado do universo, do outro lado de nós mesmos, tudo numa rajada instantânea de um neurônio saltitante. Mautner nos adverte com sua citação: o único lugar que não se deveria mexer seria na matriz dos mitos. Ele nos conta a história dos neurônios saltitantes e os dados científicos que são apresentados nos soam estranhamente belos e divertidos, imagine um preto velho com seu cachimbo, um pajé, um ancião, contando histórias aos seus filhos e netos com toda aquela aura sagrada e nostálgica que envolve momentos fascinantes como este. É assim que ele conta suas histórias. Mautner faz uma mitologização do discurso científico e uma cientificização do discurso mitológico, devorando tudo, fazendo antropofagia com a própria distinção desses discursos. É o buraco negro antropofágico, e ele também é um cone, um cone engolidor que traga tudo à sua volta.

 

Estamos novamente em Pirenópolis, se é que em algum momento saímos de lá. O Brasil de Mautner é o Kaos com K, K, assim mesmo, é um Kaos sob o qual há uma ordem subjacente, mas uma ordem que não é tão rígida assim, como ele mesmo sintetiza num momento de grande inspiração: é um rigor que se esparrama nos átomos dessa flexibilidade. E por aqui entram os neurônios saltitantes. O que são os neurônios saltitantes? Nós, que nos autodenominamos seres humanos, chimpanzés avançados, uns mais e outros menos – como diz Mautner em outro belo momento – somos sempre colocados em situações completamente novas e precisamos reagir diante do inesperado. O nosso cérebro possui mecanismos para se adaptar aos novos fenômenos, isto é, os neurônios saltam, e, neste salto, acabam reconfigurando a estrutura do cérebro ao agregar um elemento novo. Aqui se dá o amalgama, pois não se trata somente de mistura, é muito mais do que isto, é um ato de pura criação, é aquela sensação de “eureca!” que temos quando descobrimos uma nova relação entre as coisas, e o Brasil é isso, é esse constante recriar, essa irrupção galopante, essa capacidade de acomodar novas coisas e com isso tornar-se outro, sempre. Outra forma de entender esse Kaos é através dos arquétipos, nos quais Mautner coloca no candomblé, uma antecipação, séculos antes de Jung, dessa percepção de mundo, ou, como diz Derrida e a ciência comprova, os seres humanos têm vários cérebros que fingem ser um só. Desse modo, amor e ódio, deus e o diabo, e todas as contradições com que flagramos a nós mesmos, são apenas dois lados de uma mesma moeda. Nós não somos mais coléricos ou mais fleumáticos, nós somos tudo ao mesmo tempo, tudo depende das configurações, das teias as quais estamos enredados. Tudo está interconectado, e uma mudança, por ínfima que seja numa parte, altera a estrutura do todo. E toda essa ordem caótica que subjaz à formação do ser humano enquanto indivíduo, é a mesma que se encontra na formação do Brasil enquanto povo.

 

Como podemos perceber, há por trás disso tudo, uma idéia de comunicação, uma idéia de contínua troca de relações, de intercâmbio e, somente aqueles que têm a plasticidade necessária poderão sobreviver, daí o fato de o Brasil ser considerado o país do futuro. Como Mautner já trombeteou em algum lugar: ou o mundo se brasilifica ou se torna nazista. Como vimos, os cabos de alta tensão, os fios elétricos, a tecnologia das máquinas, tudo aqui nos liga de uma extremidade a outra do mundo através de uma estrutura visível, atrás da qual há uma estrutura de outra ordem que no seu rigor flexível nos orienta desorientando. É bastante emblemática a passagem do filme, quando, num programa de TV em Goiânia, é apresentado a Mautner, um vídeo que foi colocado no You Tube com uma nova versão da música Todo Errado dele e de Caetano. Aqui encontramos, de forma palpável, a síntese embrionária dessa idéia, de como a partir de uma criação que é uma forma de colocar ordem no caos é feita outra criação sem se desfazer da primeira, mas, se amalgamando a ela, criando uma coisa mais maravilhosa ainda, e é isso o Brasil, e é isso Jorge Mautner. A identidade é a não identidade.

 

Estabelecer contatos – essa é uma das tônicas do filme, e as portas e janelas estão todas abertas, nós temos somente que atravessá-las. Todas as comunicações são possíveis desde uma entrevista em inglês pelo celular (células que se interconectam!), até a mais inusitada delas com seres de outros planetas, seria esse o grande mito da era tecnológica? E aqui ciência e mito se misturam. Todas as formas de comunicação estão aí, até a passagem dos dados genéticos de uma geração à outra, como a galinha que trás atrás de si os pintinhos, o ovo e depois a própria galinha. Como o próprio Mautner com os seus pais, a sua babá e todos nós. Mautner nos leva ao Brasil indígena, negro e branco – uma viagem no tempo, diz uma voz lá no fundo – o mito formador de nossa cultura. Vamos de um extremo ao outro dessa grande parábola (agora num outro sentido) destilada pela verve poética e profética de Mautner. Numa cena em que se pode dizer antológica, Jacobina deixa passar o seu outro eu entre as folhas de palmeiras, o céu azul e a piscina, depois de se encontrarem na dança das sombras bailarinas, dança de Shiva, embaladas pelo maracatu eletrônico, elétrico e atômico. Em meio a tons fortes de azul e laranja somos levados ao mundo mítico do hinduísmo, com conversas saborosas e repousadas nos fabulosos enquadramentos. Tempo e espaço se confundem, passado, presente e futuro, tudo ao mesmo tempo, os índios e o taoísmo, banhos de cachoeira e previsões com O filho Predileto de Xangô, e, em meio a ruínas, de lá do fundo do passado, ecoa a voz persuasiva de Mautner em direção às galáxias se materializando no altar da igreja com o Herói das Estrelas. Os portugueses chegaram… mas, os protetores das florestas estão por aí: sacis, curupiras, mulas-sem-cabeça… cuidado!!!

 

Quando menos percebemos estamos em transe… hipnotizados… Desse modo, chegamos à outra ponta da parábola (agora em todos os sentidos), nas pontas que estão sendo contadas por mim, por você, por todo mundo, afinal, nada é natural tudo é construído – como construímos nossa longa marcha em direção ao infinito – O poeta rapsodo deixa jorrar através de sua voz irônica e maliciosa no Tataraneto do Inseto, a sentença dionisíaca de Nietzsche: somente aquele que tem o caos dentro de si poderá dar a luz à estrela bailarina. Desse modo, chegamos ao Rio de Janeiro e reencontramos o Brasil, mas um Brasil visível e invisível ao mesmo tempo, com todas as suas contradições, com sua rica miséria e sua riqueza miserável, encontramos o redentor que está agora de braços abertos não mais sobre a Guanabara, mas sobre o mundo todo, mundo este que surgiu em meio às águas, retirado das entranhas do nosso faminto guru selvagem.

 

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